Na introdução da sua obra sobre a filosofia do direito, o grande pensador alemão Hegel referiu-se à antiga associação da coruja - ave noturna, que levanta voo pelo crepúsculo, e à noite vê mais que todas as outras – à deusa Minerva (a...
moreNa introdução da sua obra sobre a filosofia do direito, o grande pensador alemão Hegel referiu-se à antiga associação da coruja - ave noturna, que levanta voo pelo crepúsculo, e à noite vê mais que todas as outras – à deusa Minerva (a grega Atena), e portanto ao saber, à filosofia... Essa sua frase ilustra a ideia de que o fim (ou a fase de amadurecimento de um processo, e em geral do devir no seu conjunto, que é aberto e contingente), cria retroativamente as condições para a compreensão dos factos passados, fazendo-nos ver as coisas mais claras e como que (de certo modo, ilusoriamente) pré-determinadas pelos seus antecedentes.
Por outras palavras, há aqui uma causalidade retroativa, que tem tudo a ver com a maneira como encaramos o tempo e a temporalidade: um ato propriamente dito - e, nomeadamente, aquilo que podemos considerar excepcional, um evento (algo totalmente inesperado) – cria as suas próprias condições de possibilidade.
O futuro é imprevisível “a priori”: apenas retroativamente podemos compreender a “lógica da história”... o que só aumenta a importância do estudo crítico do “passado”, para fugirmos à tendência de ver o tempo como uma realidade contínua – passado, presente, futuro – isto é, como uma linha recta que vai do início ao fim, e que é de origem cristã (opõe-se ao modo como os gregos, por exemplo, conceberam o tempo). Era nessa ideologia que se baseava e baseia a ideia de planeamento como “colonização do futuro”, na frase de A. Giddens, sociólogo inglês que foi conselheiro de Blair. Ora é interessante lembrar como a Sra Thatcher, campeã do neoliberalismo, considerou que o maior êxito da sua ação foi...a “terceira via” de Blair...
Foi aquela maneira cristã de pensar o tempo (entre a Criação e o Juízo Final) que permitiu desde há séculos o desenvolvimento do capitalismo, com a sua aceleração (sobretudo a partir do século XIX), a sua “fuga em frente” em direção ao futuro, sempre alimentando-se de “crises”. Mas também, paradoxalmente, foi essa lógica temporal que pode ter bloqueado tentativas que se fizeram de criar futuros alternativos, numa linha ideológica oposta à do lucro e afirmação individuais, a lógica do mercado e do empreendedorismo, que hoje aparece triunfante, e mesmo imbatível. Como se, absurdamente, a história tivesse chegado ao seu fim...W. Benjamin tinha bem razão ao falar do capitalismo como uma religião... que às vezes impregna inconscientemente mesmo aqueles que dela dizem descrer...
Esta questão tem obviamente a máxima premência nos tempos que correm, pois há sinais de que a situação neoliberal que se propagou a todo o mundo pode descambar em novas (e perigosas) modalidades de (sofisticado e tecnológico) autoritarismo, minando o que parecia serem as bases de uma sociedade mais redistributiva, e mostrando os limites da própria democracia tal como formalmente é praticada.
Pretende-se aqui simplesmente criar um pequeno espaço de reflexão onde se aborde a questão da história, da memória, enfim, do tempo, não apenas para nos entretermos com conversas eruditas, mas para tentarmos “ver um pouco mais claro” no meio do nevoeiro das opiniões e do ruído dos média, a contrapelo do que se ouve no ambiente em que se vive – um espaço público insuficiente, depressivo e deteriorado.